terça-feira, 25 de novembro de 2008

A mulher e o buquê


"Não era apenas uma senhora caminhando pela rua; era uma senhora caminhando pela rua com um buquê. Verdade seja dita, estava de branco, mas de certo não era noiva, pois não se vestia como tal. Estava cansada, percebia-se pelos olhos, mas ouso afirmar que não se tratava de tristeza. Simplesmente cansaço, na sua definição mais simples, afinal, já era noite. Talvez, fisicamente, estivesse ali, mas seus olhos mostravam que estava longe; seguia seu caminho como se ligada a algo que a fizesse chegar aonde deveria, sem ao menos perceber o percurso que fazia. Seguia seu trajeto de maneira automática. Se vivêssemos em outro século, no futuro, poderia jurar que se tratava de algum tipo de ser mecânico, cujos passos são perfeitamente calculados do local de origem, ao de destino. Mas não se tratava disso. Era apenas uma simples mulher com um buquê na mão. Não andava, não corria. Caminhava a passos lentos.

Chamou minha atenção não pelo andar, não pelos olhos, mas pelo buquê. Rosas brancas e vermelhas estavam ali, embrulhadas nas mãos daquela mulher, mas ninguém notava. Seriam aquelas flores fruto de um marido apaixonado? De um filho arrependido? Quem sabe, até mesmo, de um admirador? Era um arranjo muito vistoso. Bem elaborado com detalhes singelos, como um desses auto-adesivos fornecidos pela floricultura. Não consegui identificar o que dizia mas, de certo, tratava-se de alguma felicitação. A forma como pressionava o embrulho sobre seu corpo tornava visível o quão importante era. As cores das flores refletiam no asfalto. Qualquer um que a observasse por dois segundos, perceberia que olhava o chão com um leve sorriso nos lábios. Porém o reflexo não provinha das luzes alaranjadas da rua sobre sua sombra, mas sim dos pensamentos aos quais ela recorria naquele instante: as flores.

O sinal ordenou e meu carro andou. Poderia ter permanecido parada ali por mais alguns longos e curtos instantes, imaginando como não teria sido o dia da jovem senhora até chegar naquele instante, onde sua realidade e minha imaginação se cruzaram. Não consegui concluir nenhuma história, pois muitas seriam possíveis no contexto observado. Contudo, uma conclusão obtive: se fui eu o agente observador da situação, ela, com toda certeza, foi o transformador. Por mais que ela nunca venha a saber, seus passos, seus olhos e seu leve sorriso geraram, em mim, uma pontinha de alegria. Em uma cidade onde sirenes, gritos e tiros são percebidos pelo medo que provocam, cenas como a observada por mim são completamente ignoradas. Pensei então que não só eu, mas todos nós precisávamos de um algo mais. No lugar de armas, um buquê. No lugar de tiros, uma pétala. No lugar do medo, esperança."


Tinha começado a escrever isso há bastante tempo, mas parei no meio. Terminei hoje.

4 comentários:

Anônimo disse...

que lindo! que orgulho!

Bibi disse...

PELO AMOR DE DEUS! QUE COISA MAIS LINDA! PENSEI ATÉ QUE FOSSE DE CLARICE LISPECTOR, JURO POR DEUS! AMEI, AMEI, AMEI! POSSO ROUBAR COM CRÉDITO? TO SEM PALAVRAS.... E OLHA QUE CONHEÇO MUITAS...

Anônimo disse...

CARACA VEVE!!!
Acabei de descobrir q vc tem um blog...e ele ja está nos meus favoritos...li o primeiro post e nao resisti...li TODO O CONTEUDO DO BLOG!!
Carac q poder com as palavra hein!!
Parabens!!!!
bjs,

Anninha Coimbra

Anônimo disse...

Tem selinho pra vc lá no meu blog. Beijos!