
De uns dois anos pra cá, o meu interesse por cinema saiu de 10 para 120 em uma escala de zero a cinco. Então, se eu já gostava e/ou me interessava, hoje sou quase uma maníaca. Seria muita pretensão dizer que eu entendo tudo de cinema (até porque eu mesma me acho uma zero à esquerda e tenho consciência de que eu não sei NADA), mas faço questão de entrar no Cinema com Rapadura quinzenalmente, com uma freqüência quase religiosa, pra saber das novidades e dos lançamentos que estão por vir. Mas eu, na minha santa postergação de tudo aquilo que me diverte, nunca (ou quase nunca) me mexo pra ir ao cinema, e acabo vendo os filmes só depois que a Blockbuster põe na prateleira. Não reclamo. Se tem algo que eu amo fazer é alugar um filme, deitar na cama dos meus pais, comprar um Haagen Dazs de doce de leite e assistir ao filme sozinha (isso porque acompanhada eu não me concentro o suficiente pra me emocionar de acordo com o andamento do filme. É um processo altamente introspectivo! haha) Tudo bem, típico programa de gordinha tensa, eu concordo, mas vai dizer que não é bom? Por outro lado, comprar o mega combo de pipoca com refrigerante (que no "meu tempo", tinha refil) e sentar naquela poltroninha confortável, também é muito próximo do irresistível. Enfim... Como falei, acabo alugando e assitindo em casa.
Essa coisa toda de "neo-cinéfila" me fez criar uma nova paixão na vida: toda vez que um filme baseado em um livro está próximo de estrear, eu compro o livro para ler até a estréia. É óóóbvio que eu não vou na estréia e acabo recorrendo a minha amada Blockbuster, mas vale como meio de evolução cultural e crítica. Com os últimos quatro livros lidos por mim (até o final, porque essa é outra mania minha: parar no meio!) foi assim! O último, do excepcional Gabriel García Márquez ("Amor nos tempos do cólera"), é fantástico e me faz ter a certeza de que vou achar o filme bom mas nada comparado ao livro (com todo respeito à outra excepcional, Fernanda Montenegro).
Como ia dizendo, há uns dois ou três meses, quando toda a agitação de greve dos roteiristas norte-americanos começou, iniciou-se também a preparação para os dois maiores eventos do cinema mundial: o Globo de Ouro e o Oscar (que no meu ponto de vista, são fascinantes de assistir). Na medida que os candidatos a candidatos eram cogitados, comecei a pesquisar sobre os filmes e, lendo umas das edições daquela revista que deveria se envergonhar de existir (Veja) mas que sou obrigada a ler por causa do vestibular, me deparei com uma reportagem sobre o livro "O Escafandro e a Borboleta". Ali percebi que tinha passado o tempo quando a capa do livro me chamava a atenção. Agora, o importante era o título (hahaha)! Não é qualquer livro que tem uma palavra tão desconhecida quanto "Escafandro" nele
(curiosidade: s.m - vestimenta hermeticamente fechada e provida de um aparelho respiratório, que permite trabalhar debaixo de água.)
O livro é um exemplo de paixão pela vida. O autor, Jean-Dominique Bauby, era editor-chefe da revista "Elle" francesa, ou seja, ele era pobre e burro (isso foi irônico, ok?!). Até aí você pensa: "Realmente, com tanta inteligência e dinheiro é fácil ter paixão pela vida!". Pois é, só que, em um "belo dia" o cara sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) e entrou em coma profundo. Quando acordou, constataram que ele agora sofria de "locked-in syndrome". Significa que ele não tinha movimento algum de parte alguma do corpo. Braços, pernas, pescoço, cabeça, tudo parado. Comer então, no way mesmo. O único, eu disse, ÚNICO, movimento que ele tinha era o do olho esquerdo (pra você ver como o negócio era barra, era só o olho esquerdo). Pra ser mais clara, sua comunicação com o mundo fora da cabeça dele, era o olho. E é aí que entra a tal "paixão pela vida": com esse olho ele escreveu o livro. Alguém (enfermeira, amigos ou familiares) ia ditando o alfabeto pra ele, que por sua vez, piscava uma vez quando queria utilizar a letra e duas quando não queria (ou vice-versa, não sei, mas você entendeu a teoria)!!! Todas as manhãs, durante semanas, ele memorizava as frases que iria "ditar", REVISAVA OS PARÁGRAFOS MENTALMENTE (meu Deus, que gênio!) e então "escrevia". Assim foi, durante 142 páginas.Hoje, depois do colégio, fui ao Shopping comprar o livro. Mal cheguei em casa e já comecei a lê-lo. Nunca dei tanta importância a vírgulas e pontos de exclamação; aos caracteres por si só isolados. Cada letrinha me provoca um arrepio e enquanto leio não consigo parar de piscar. As páginas são bem curtas, então mesmo tendo lido apenas uma hora, já passei da metade. O mais incrível de tudo: o livro tem uma pitada de humor. É simplesmente fantástico como o autor trabalha com o próprio problema, fazendo-nos ver que "falta de movimento" não é sinônimo de invalidez, mas motivo para a perseverança. Os membros dele podiam estar parados, mas ali ainda batia um coração.
Só pra constar: o filme concorreu em 4 categorias do Oscar, incluindo melhor direção.
-TRAILER (em francês): http://www.youtube.com/watch?v=5wUEAJRE8i4
2 comentários:
Nossa, nao sei fazer um livro nem com todos os movimentos.
E eu achando que eu era a esperta hahaha
Ai Vê, só de ler já emociona! Não posso ver coisas assim ñão, sou muito sensível, me envolvo, fico deprimida, uma coisa...
Mas to vendo que vc se amarra em ler! Me empresta uns livros aê?!
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